sábado, 21 de maio de 2016

Equinócio de outono




 Imagem: Sara Facio / Frase: Jorge Luis Borges (Jorge Luis Borges en Buenos Aires)





O primeiro dia de outono imprimiu suas matizes. Vento forte, folhas amareladas no chão, o céu carregado de cinzas e azuis. Nas ruas encontro, por acaso, pegadas de Julio Cortázar e Jorge Luis Borges. Como se fosse uma sina, um sonho, uma espécie de alento quando chega um amigo distante. Um sopro do futuro colado aos ares do passado.





Passo pelos turbulentos dias portenhos. Não há como não lembrar no título “Fervor em Buenos Aires”, o primeiro livro de poesia de Borges, do ano de 1923, que me traduz: a melancolia interna com a efervescência da superfície.


Vejo todas as cicatrizes da história: a luta viva e permanente das mães da Praça de Maio, a convicção da dor transformada em palavra concreta, que bate todos dos dias à porta dos que se calaram – como se o silêncio pudesse esquecer a perversidade.

Percebo nas aliterações da cidade o ritmo preciso e alto de todas as vozes. Pulsa, como um coração aos pulos.

A arquitetura, outrora monumental, sofre o abandono, todavia com elegante decadência. Há algo que se apaga nas esquinas, mas há luz entre as calçadas, há espelhos que refletem as imagens que passaram e as que continuam ali. Mimetismo surrealista, concreto e palpável.



Há, sobretudo, um céu imensamente azul, que faz lembrar que o rio tem a cor prata, que os passos marcam a história, que as cores mudam como se tivessem um temperamento. O sol incide com mais força nos hemisférios, os dias e as noites têm o mesmo tempo. Ocorre, neste momento, a mudança da estação.

Equinócio de outono.


A estante onde estavam as louças quebrou, os pratos espatifaram-se no chão. Sobraram apenas alguns talheres, suficientes para o longo dos dias. O retorno veio carregado de dúvidas, verdades e poemas. Algo, sob a pele, está diferente. Violentamente doce.

Mirar. Volver. Insensatez.

A paisagem inverteu-se. Como um sonho.

O vento sopra e ouço o som de Cortázar, que me diz, em voz baixa: “o mistério está sempre entre as coisas”.


A música ensaia o movimento das ruas, o silêncio invade a noite. A similaridade das palavras se amalgama, embora com significados bem diferentes. Estranho e estraño.

Já sinto saudades, palavra intraduzível em qualquer idioma.



Para Cristine Pieske, que segura minha mão nas tempestades.
 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Enquanto existir o mar



Entre o ruído e o silêncio, ouve-se o barulho do mar. O ritmo preciso das ondas quando arrebentam na areia, quando batem nas pedras, quando se percebe, mesmo de longe, o som.

O som que não sai do interior das conchas, não sai dos ouvidos atentos, não sai da imagem refletida nos sonhos, não sai da intensidade da palavra.
Ressoa, silencia, amplia.

Quase como um sopro, uma fuga, uma vertigem.
Olhos que não viram o mar blindam manhãs carregadas de ventos úmidos.

Uma ausência.

Enquanto existir o mar permanecerá o silêncio, a dúvida, a pausa.
A reverberação que se cria enquanto faz um mesmo movimento, com a previsibilidade da repetição, porém sempre com espanto – como as coisas que não tem fim – percorre as ondulações das lembranças.

O som do mar invade a memória, traz à tona os segredos, inventa os mistérios. Habita a paisagem febril, refaz a imaginação, invade os hemisférios, reconhece as distâncias.
Enquanto existir o mar haverá poesia, enquanto existir o azul haverá o branco, enquanto os olhos seguirem uma linha sem fim sempre haverá um novo começo.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Perto





Sou toda essa lembrança. Sou o viés do vento que sopra quando fecha os olhos. Sou o deserto que invade sua calma com a imensidão das horas guardadas no tempo.

A respiração é lenta, o pensamento não existe. Apenas a constatação da paisagem que surge violenta e precisa dentro das minhas manhãs.

Zero grau, voraz tecido da memória, imagem guardada na pele, sigo essa prece ao adormecer.
Porque quando sonho parece nítido o que sou. Visceralmente. Preciso dessa lembrança para não esquecer-me. Porque é nos extremos que se reconhece a dor e o sangue. O início e o precipício. O silêncio e a respiração. A linguagem adquire outro significado, aniquila os códigos existentes, o simbolismo universal, a sensatez dos dias certos.

Encontro na aspereza das circunstâncias, do palpável, do concreto, o que temia não mais lembrar. Com toda a fúria, com toda a fuga, com toda a vertigem que se sente quando olhamos para o abismo. Invento o nome de tudo que não é possível, fico com a única a palavra que não esqueço: perto.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

O cálcio dos meus ossos



Foto: Lagunas altiplânicas/deserto do Atacama/Chile, 2015.

Na superfície da Terra existe a paisagem lunar. Planeta entre outros planetas esculpe desenhos ancestrais nas areias. Nunca antes visto, nunca antes pensado, apenas um sopro, assim como um sonho dentro de outro sonho.

Na imensidão da luz a altura do silêncio. Tão intenso quanto o sol em minha pele, quanto a minha retina ofuscada pela cor. Ouço o som original da vida, o vento que corta todos os sentidos do corpo. Abro os olhos para conferir se é miragem ou realidade. São os dois. Universo paralelo.

Estou na linha do Trópico de Capricórnio – Latitude 23° 26’ 16”- que atravessa três continentes, onze países e os três grandes oceanos. 45 graus de dia. 10 graus à noite. Passo pelo ponto exato do campo magnético. Deslizo pela linha reta que parece íngreme, inverto meu olhar para outra perspectiva. Horizontes planos em terra de gigantes.

Laranjas, vermelhos, azuis, verdes e brancos. Todas as cores inventadas pela imagem original do mundo. Quando cai o dia a noite entra avassaladora pela esquina. Sobe a lua gigante e amarela junto ao céu de estrelas. Toco-as. São o cálcio dos meus ossos.

Brancos, espaços, luz. Tempo, memória, origem, instante. Todos os nomes que vieram depois, todas as explicações do indescritível, todas as tentativas de saber o que já se sabe.

Pensamento, respiro, presente. Levo-os comigo sob a pele, mergulho na imensidão voraz das esferas, percorro todos os centímetros das constelações, consigo carregar este sonho, já o havia sonhado. Dias escaldantes, noites galáxias, poeira cósmica do universo. A firmeza do presente. A certeza das paisagens. O possível transformado em pedra. Para sempre o deserto em meus olhos, o mundo está em mim.


Para a Revista Ideias/fevereiro 2016

domingo, 10 de janeiro de 2016

paisagem submersa

Abaixo do oceano havia outro oceano que revelava um novo mundo. Ninguém ouvira falar, não havia vestígio desta terra submersa, quando, nas profundezas do mar sem fim, este lugar foi encontrado.



Pausa. Respiro. Breve eternidade de surgir, ao acaso, um mundo perdido.Vasto, incompreensível, gigante.




Em que horas seu rosto começou a dissolver-se no tecido fino da memória? Quanto tempo levou para sua imagem dissipar-se como fotografias lavadas pelo tempo? Ainda existe o contorno dos seus olhos, a marca da sua boca, um sorriso pego por acaso. Suas linhas antes tão definidas apagaram-se, sumiram, como tempestade no deserto. Agora apenas aridez e sol escaldante.

Insolação.

Escrevo pelo meu corpo o que não quero esquecer. Frases, ritmos, números, símbolos. E o tempo os leva como fez desaparecer, quase por completo, sua identidade. Transformou-a em outra, suspendeu a lógica, sublinhou o ar. A respiração, que ouvia quando você estava ao lado, e quando estava longe, permanece nos sonhos.

Te ouço quando durmo.

Construo uma imagem de algo que foi inteiro um dia. Invento, crio, imagino. Sua pele suave como pétala, sua voz perto dos meus ombros, a fumaça entre os dedos.

Não é mais meu, não é mais nada, não faz parte.
Paisagem submersa.

O cheiro das coisas que estavam ali mudou, a cor das músicas esvaiu-se, o céu que assistia o anoitecer inundou-se de estrelas. Escrevo na minha pele todas as palavras que são minhas, que são agora o tempo incessante e preciso, que formam um outro rosto no qual eu escuto, soletro e respiro.

Até adormecer.

O oceano estava ali, intacto, abissal, entre as rochas, à espera do tempo seguinte. Onde estão as linhas, os segredos, as memórias, os contornos daquilo que um dia fomos nós.


publicada na Revista Ideias/janeiro 2016

domingo, 20 de dezembro de 2015

Fora do mundo




Sob a paisagem noturna sinto o avesso da pele. Subtraio na imensidão vaga das horas a memória febril. Distancio para chegar mais perto do meu lar, aquele que habito, aquele que constrói, aquele que avisa que haverá um futuro confortável caso me jogue na aspereza da solidão. Haverá um mesmo idioma, uma mesma linguagem, uma mesma manta onde me escondo do ruído constante da maldade.

Habito o lugar onde estão todos os medos, a soma das cicatrizes que marcam e não aparecem, que doem e ninguém sabe. 

Dentro, por dentro, sob a pele, sob o sangue.

Viajo para este lugar que não existe.

Esqueço de mim, me abandono, vejo flutuar as palavras que transpassam as linhas horizontais. Inalcançável. 

Meu nome é longe.

Perco a bússola, sigo o vento, aviso a chegada da primavera, caio como o sol que se põe todos os dias, espalho pelas minhas mãos a chuva à espera da terra.

Assim, sutil como o eterno, inevitável como o sonho, delicado como o fim, escuro como a tempestade que subverte os céus e proclama sua morada, encontro a cartografia repleta de sinais, sons, mistério. Cubro todos os espelhos e os viro contra a parede. Aprendo a esquecer.

Nesse mundo submerso resgato as palavras, aquelas que exilaram-se, aquelas que carregaram com toda a intensidade a certeza das manhãs inundadas de poesia.


Imagem: Obra de Francisco Faria. Mares do Levante
Publicado na Revista Ideias/dez 2015

domingo, 8 de novembro de 2015

Nada mais claro que o esquecimento

Esquecer de você faz esquecer-me de mim. Faz passar para outra margem do tempo onde eu não vejo mais flores, onde não ouço mais música, onde meu sonho encontra outra paisagem.

Assim que abro os olhos.

Tudo começa antes da tempestade, quando vem o vento oblíquo que corta meu rosto com seus segredos perto dos meus cílios.

Fecho os olhos.

Para voltar àquela cena em que te olhava infinitamente até adormecer. Encontro o tempo em que andávamos sem rumo, de mãos dadas, à espera do anoitecer.

Imensamente frágil. Violentamente doce.

Quando percebo que acabou.

Nada mais claro que o esquecimento.

Esqueci uma parte minha, esqueci uma rima, esqueci de como eram seus olhos. Esqueci do seu cheiro. Da mesa, do ritmo, da dúvida.

Suspensa no ar.

O reflexo do sol queima minha retina, minha pele, espalha pela aridez da memória os segundos do tempo. Seguro isso como grãos de areia nas mãos fechadas.

Dissolve, voa , esvai.

Sinais do outro hemisfério, da longa trilha que se percorre sozinho.

Um oceano se abre. Sinto a chuva escorrer sobre meus cabelos. Mergulho dentro dos meus olhos, eles são a minha chegada a um novo mundo.

Voltei à tona, catei as conchas no caminho, lembrei de mim como um sonho que chega ao fim.


Publicado na Revista Ideias- novembro 2015

Mar alto   Mergulhar em mar alto, sonhar em águas profundas.   Transformar o abismo em ponte para navegar sem turbulência, para prov...