quinta-feira, 13 de setembro de 2018

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

uns versos

Sou sua noite, sou seu quarto
Se você quiser dormir
Eu me despeço
Eu em pedaços
Como silêncio ao contrário
Enquanto espero
Escrevo uns versos
Depois rasgo
Sou seu fado, sou seu bardo
Se você quiser ouvir
O seu eunuco, o seu soprano
Um seu arauto
Eu sou o sol da sua noite em claro
Um rádio
Eu sou pelo avesso sua pele,
O seu casaco
Se você vai sair
O seu asfalto
Se você vai sair
Eu chovo
Sobre o seu cabelo pelo seu intinerário
Sou eu o seu paradeiro
Em uns versos que eu escrevo
Depois rasgo
E depois rasgo

Adriana Calcanhoto

segunda-feira, 3 de setembro de 2018



e no final e no final e no final


ficamos sem saber para onde foi o cheiro, a luta, a memória


ficamos apenas com a sensação do sonho que nos levou para algum lugar

que nos sabíamos




desde sempre




esperar outra trégua


guardar as mágoas


sufocar o silêncio dos gestos subtraídos





poucos


uma hora muitos





em um dia que levou uma vida toda

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Olho suas mãos


Foto: Mariana Alves


Olho suas mãos

nas linhas que migraram para as minhas

na noite que virou espelho

no gesto lento

nas palavras que não existem




quando chove penso em você

quando há sol

quando o frio me traz seu rosto

o vento te carrega para mim

para sempre




criamos um mundo

um oceano

um sentido

um porquê sem resposta

uma maneira de existir




um sim que lutou contra todos os nãos

terça-feira, 3 de julho de 2018






Mergulhar em mar alto, sonhar em águas profundas.


Transformar o abismo em ponte para navegar sem turbulência, para provar a tempestade,

para ter perto algo que não vale o concreto.


Apenas o invisível sob a pele que pulsa, que refaz o caminho, que inventa um hemisfério.


Perder-se nesse mar sem fim, procurar nas frestas o cheiro, trazer o segredo para dentro.


Porque a busca não cessa, o idioma não alcança, o céu esquece e a palavra cura.

sexta-feira, 25 de maio de 2018



longe

um dia miragem

paisagem

o céu estrelado




foi por pouco

por um triz




como canta o Chico

diz se é perigoso a gente ser feliz




pela vida que segue

pela alma que cansa

pelos olhos que não abrem

pela palavra não dita

pelo cigarro tragado

pela madrugada insone

pelo veneno tomado




por uma estrada sem fim




acaba

como um vento breve

como um poema desfeito

como o olhar perdido




a dor

atravessa os dias e as noites

em vão

em brasa

em gestos pequenos

em minhas pálpebras que pesam ao anoitecer




te chamo

por outro nome

até esquecer

e virar apenas memória


terça-feira, 4 de julho de 2017

A prerrogativa do sim






Apagar-me, para que meus olhos possam acostumar-se com o escuro. Toco onde está a falta, a fala, o silêncio. Onde se forma o vazio, onde está a essência, onde se encontra a raiz dos sonhos. A origem da linguagem.


Na matemática imprecisa dos gestos, a vontade de mergulhar no abissal mundo dos segredos profundos, do rasgo em que se ouve a falha, a faísca do possível, o caminho sem volta.


A pele se transforma em veludo, costuro-a para que me proteja das tempestades, para que me aqueça, para que carregue junto ao vento as poesias, para que sopre bem leve na minha nuca, para que a delicadeza seja uma forma de salvação.


Uma cicatriz invisível se abre entre as frestas do corpo. Tudo expande, dilata, permanece. Sem sangrar a memória, lembro o medo de altura, a sensação vertiginosa de olhar para baixo. O abismo a um passo do concreto. O ínfimo segundo que te move para trás. Ou para frente.


O lugar onde estão os medos, os sonhos, os vãos, as esquinas que levam ao imprevisto, ao imprevisível, à dúvida. Os espelhos prolongam as matizes, a pele-veludo faz girar o caleidoscópio das luzes, brilha, ilumina.


Cubro-me com a ausência das cores. Volto à origem, à substância, ao que se sente e não se vê.

Faço do não a prerrogativa do sim.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Os céus nunca são iguais



Estilhaçar a palavra até perder-me em águas profundas.


Mar bravo. Ondas altas. As ondulações arrebentam onde está mais raso.


Percorro com meus dedos onde está a falta, o silêncio, o vazio. Voraz paisagem em que a febre atravessa e preenche o pôr do sol. Deixo que a chuva espalhe o que foi escrito na areia como uma sentença, um recado, uma declaração, como uma carta não entregue, ao som de lágrimas e vertigens.


Perco a medida, o limite, a sensata proporção do possível.


Prefiro a ausência, o corte, a dúvida. Basta o que está na superfície carregado do óbvio.


Volto à palavra, antes dela, ao silêncio. Ao que pode se formar com os olhos cheios d’água.


Os céus nunca são iguais, como o seu rosto perdido entre todos, como o sopro de uma lembrança, como a memória submersa que um dia volta à tona, como o nó na garganta, a mão que desliza pelos cabelos, a pele que se troca quando se depara com o abismo.


Salto. Silêncio.


O branco traduz a insensatez.





O deserto é Deus sem os homens – Honoré de Balzac 


Silêncio. Imensidão. Presente. Nada é mais arrebatador do que o deserto, nada é mais perto, nada é distante diante da colossal paisagem. A temperatura muda, o corpo transforma, a respiração diminui, os passos são lentos. O tempo é outro. Transcorre sem precisar contá-lo.


Na pele, as cicatrizes invisíveis aparecem, antigas e profundas, feitas por descuido, por zelo, por esquecimento. Transbordam. O pensamento se esvai, como a areia soprada pelos ventos, como algo não palpável, como se não precisasse existir.


Pausa. Respiro. Branco.


A luz entrecorta os contornos das pedras, do azul, o mais profundo. A vida acontece de forma rara, assim como a delicadeza persiste em meio a estados brutos, áridos, ausentes.


O tamanho exato, a medida do que é apenas o essencial, o que não sobra, o que cabe nas palmas das mãos.


Espelhos de céus, montanhas, cores. Reconheço traços que havia perdido, percorro a cartografia do impossível, do mapa ancestral vestido de peles e nuvens, com o sol colado na retina.

domingo, 12 de março de 2017

Após a tempestade

marianna

Sinto o pulso descompassado, a respiração pausada, a interminável fuga para outro universo, a onda que bate nas costas, as tentativas impossíveis de lucidez.

Basta um impulso, um gesto, a insensatez.

Em segundos a tempestade se dissipa, percebo a formação de nuvens em um céu que torna-se claro, no vento que sopra, na paisagem que se abre.

A dimensão exata, o lugar certo, a linearidade precisa do gesto. O caos transformado em sentido, o vazio convertido em silêncio, a palavra impressa na pele no assimétrico percurso das letras, do corpo, do sangue.

Absolver as dores e criar memórias na escrita, que escuta e acalma. Como quando ouço um segredo, quando danço no escuro, quando sonho profundamente e acordo sem saber onde estou.

Escreva-me, percorra-me, anoiteça-me.

Busca-me entre os vãos, entre as peles que se desfazem sem vermos, que se perdem e se refazem.

Encontro o lugar em que tenho a medida exata dos contornos imprecisos das linhas da minha mão, dos mistérios não revelados incrustados nas conchas que guardam a música dos oceanos.

março 2017

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Uma



 marianna


Somos uma.

Uma lembrança de infância, o cheiro de pão doce nas manhãs, dos temperos da cozinha, das mangas caídas em volta da árvore, da capa dura dos livros que nos leva ao mundo inexorável da escrita. A música, as flores, as falas. O céu, as cores, as histórias. O sim, sempre antes do não. A escuta, o silêncio, a tarde.

Tecidos de uma mesma memória.

De mãos dadas e ouvidos atentos ao falar dos sonhos, filmes, pessoas. Ouço seu sorriso, como um horizonte que não deve ser perdido, como uma prece, como um lugar onde me abrigo das tempestades e dos ventos fortes, das marés que sobem, do calor cáustico na paisagem febril.

Intensidade, força, delicadeza. Seu nome escrito na alvorada, no caminho árduo porém terno, seguro, onde há conforto e proteção. O nome da estação onde a natureza transcende e arrebata. Primavera.

Vejo seu rosto refletido nas margens da represa, nos flamboyants laranjas, na terra vermelha. Em cada criança de pé descalço, nas rugas fincadas das mulheres sofridas. No fazer da miséria, abraço, do chão batido, adubo, da vida, algo além da aspereza dos dias.

Quando adormeço, seguimos nossa prosa, sob véus e brisas.

Somos uma, como quem é perto, como quem nasce, como o amor que ensina, transforma e permanece.

Para sempre.

fevereiro 2017

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Nas palmas das mãos

marianna


Perceber, com a forma do vazio, o que existe nas palmas das mãos. Ouvir, como se não houvesse música ou ritmo, permitir que a palavra cesse, que o silêncio atravesse os medos, que exista um lugar onde se veja as tempestades e as cores que transformam o céu, onde o vento carregue as dores, onde exista a pausa antes de partir.

Deslizo meus dedos no vidro embaçado pela chuva, faço um desenho, dou as pistas para você conseguir chegar. Através da paisagem molhada, as árvores perdem a exatidão e desequilibram o plano linear.

Escuto o barulho do mar, conto o tempo que as ondas levam para arrebentar. Sete segundos. Tempo onde guardo o fôlego quando respiro fora d’água, tempo que demora os cigarros tragados, a fúria do entardecer, a efêmera delicadeza dos peixes que moram no fundo do oceano. Presságio de um silêncio abissal.

Escrevo sobre meu corpo, vejo as palavras transformadas em sangue, cicatrizes que se tornam a memória bruta dos sonhos, a subtração dos gestos, a simetria dos espelhos, os espaços em branco.


Guardo essa imagem como se fosse um amuleto, em que possa tocar toda vez que me sinta só, que possa me salvar de um rasgo na escuridão, do cansaço dos dias, das fundas incisões marcadas sob a pele.

Deixo um espaço para o silêncio, para recordar que a casa é perto, não longe.


janeiro 2017


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Quando eu voltar será para sempre






Refiz todos os passos que havia imaginado, inventei paisagens, descobri céus, mergulhei em meus olhos. Escrevi a narrativa do impossível, do que não é palpável, da pele da palavra antes de ser impressa no papel.




Comecei pelo deserto, lugar do silêncio infinito, dos céus tingidos de rubro, das raras espécies que sobrevivem à severidade do tempo, à falta ou excesso da luz, à alta altitude. Munida dessa essência fundamental, parei, observei, voltei ao início de tudo, para depois jogar-me ao abismo. Ali onde me perdi, quase enlouqueci, me descobri.


Caí com toda a velocidade numa espiral de contradições, sinas, sonhos. Apenas o não nos devolve o sim, o que é de verdade, o que ensina a mudar. A realidade mostra todos os dentes, escancara os medos, mas também nos acorda do pesadelo.


Recomecei do zero, recolhi as dores e os medos, e segui por essa trilha desconhecida e imprevisível. Marquei minha pele com palavras que viraram sangue: “Irreversível. Como uma palavra sem volta. Como um rio que corre. Como o sol em meus olhos”.


Como profecia, o improvável acontece, o som do sonho desenha o sim, há leões na porta do mistério. Vejo o mundo submerso que volta à tona para respirar, descubro paisagens possíveis, refaço a composição do sal, curo as feridas.




Por fim, retorno ao começo, de onde vim, o que sou, como se não houvesse outra possibilidade. Ando pelas ruas da minha memória, me absolvo. Preencho todo o vazio com silêncio e delicadeza, com a certeza de que quando eu voltar será para sempre.







quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Um punhado de sal, lágrimas e flores amarelas








Cerro de Monserrate, Bogotá - Colômbia ( outubro de 2016)


Enquanto houver flores amarelas, nada de ruim pode me acontecer. (Gabriel García Márquez)


Na paisagem impensável montanhas convivem com mares, sais, sóis, sons, ventos. De cima, o ar é rarefeito, escasso, incompleto. Uma vasta atmosfera cubista e desacelerada, entrecortada por nuvens e flores e cores e pássaros e plantas.

Na linha do chão, caos, beleza, certezas, tristezas. Fazer da miséria graça, fazer das dores abraço, fazer do rasteiro emoção. A ancestralidade e o recente passado crus como as ruas chamam a palavra morte e vida, sofrer e prazer ao mesmo tempo.



As esquinas exalam música, dança, ritmo, magias, superstições. O céu imprime as cores do presente, o mar as tintas do passado, a memória as peles do futuro.


Sem preparar, sem esperar, sem perceber, caem todas as defesas do teu sistema imunológico, te arrebata como um vírus, como algo que nunca se está preparado para enfrentar. Forte e rápido como vem, vai e te deixa mais forte.


Carrego sal para curar as feridas, diminuir a reação ao sol, aumentar o sabor, para recordar um tempo onde a substância valia ouro. Lembro que fomos um só, o cérebro, o coração, a magia, a palavra, a matemática, a precisão, a crença. Somos agora apenas vestígios de uma antiga civilização.


Num lugar onde as esperanças foram suspensas para dar vazão às batalhas da lida, às perdas, ao que não faz sentido, chega o momento de emergir, sair do fundo mar, pôr a cabeça para fora d’água, respirar novamente, aprender a olhar sem que ninguém cubra a vista.


Nas escadarias de pedra, as lágrimas se unem à dor e à alegria. Sempre se sabe quando algo é uma coisa só, que se chama, ou se transforma, em “realismo mágico”. Sereno, sabido, primitivo.


Não há contradição, não há linearidade, não há enganos, há apenas um punhado de sal, lágrimas e flores amarelas.

domingo, 9 de outubro de 2016

O silêncio da memória



Ocultar-me, distrair-me, ausentar-me. Todo o silêncio que habita os subterrâneos da memória. Toda a palavra engasgada e partida. O medo percorre as linhas dos hemisférios, sopra bem suave na sua nuca, desvia o olhar quando é encarado.


E invade e nos atravessa e nos distrai de uma dor qualquer. A dor esquecida,talvez nunca sabida, a que não nos damos conta, que não se imagina e não se inventa, que se torna real, que invade a vida de forma aniquiladora e irreversível. O pensamento não chega neste lugar, muito menos os sonhos.


Fragmentos de lembranças, fotografias rasgadas e diluídas pelo tempo. Não lembro mais o contorno do seu rosto, o desenho das pálpebras, o sorriso enviesado, não lembro mais das paisagens febris quando chegava o verão, da secura das tardes caídas, do céu abissal que se abria sobre os pensamentos, dos oceânicos porquês sobre a origem do universo.


Reinvento esse tecido invisível. Para lembrar uma dor, para esquecer outra, para saber qual a cor refletida nas luzes, para acordar e sonhar novamente.


Monto esse quebra-cabeça como se fosse uma maneira de existir. Desenho um percurso tênue, frágil, perigoso na cartografia do impossível. Quando fecho os olhos percorro essa narrativa para não esquecer-me. Em cada palavra escolhida, em cada poema, em cada gesto invisível, em cada silêncio guardado nas frestas da memória.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Subversão



Subverto a forma do verbo. Faço incisões talhadas na pele para que não sumam.

Somos perto – ou quando a memória falha e ressignifica somos longe, somos além, somos a frase inventada, somos pecado e perdão.


O agora, sem passado nem futuro. O tempo-verbo-presente, sem distinção de moradas anteriores ou o plano abstrato da esperança ilusionista.


Cada palavra se torna arma, cria um jogo, uma espiral de significados e enigmas. Uso-as como flechas que atingem em cheio o alvo, que resistem absolutamente ao raso, que acertam ousadamente a pilha ordenada dos papéis, tingem as roupas organizadas por cor, bagunçam a leitura feita por ordem alfabética.


Crio o dicionário das obscenidades, do que não pode ser dito, do que não é nem pensado para que não valha o concreto. Reinvento as letras e o que elas podem significar, escrevo em cima das toalhas brancas engomadas e perfumadas, percorro esta linha sinuosa e frágil da coluna vertebral, basta uma pressão mais forte. Basta a queda, o mergulho. O abismo.


Diante do precipício ouve-se o silêncio refletido das águas. Somos aqui sem agora, somos sem tempo, somos sem ver, somos o espelho partido, somos hemisférios contínuos, somos o mapa que aponta os ventos, somos as linhas imprecisas das palmas das mãos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Palavra abissal



O azul, o mais profundo. Toco no fundo do mar o som que não se ouve. Não é possível aos ouvidos humanos. Acontece de repente, como um soco ou algo que se vê na distração. Detalhe invisível, espelho que não reflete, o abissal mundo submerso, as ondas sem cor, a cor que brilha no escuro, a palma da sua mão sem as linhas, a pele cor de opala, a luz uma só. Palavra de silêncio. Borboletas brancas voam em torno dos peixes. Lá, onde existe o outro plano, os sons dos sonhos, o céu invertido de estrelas, onde anoiteço.


Olho nos seus olhos dentro d’água. Não reconheço. Não me deixe sozinha quando me olhar novamente. Reconheça-me. Segure minhas mãos. Não deixe que eu solte. Ensina-me suas frases, letra por letra, invente nosso idioma. Deixe que fale sua língua. Quando estiver dormindo, soletre meu nome no escuro. A manhã chegará mais tarde, a névoa terá se dissipado, e lerei o bilhete que você deixou em cima da mesa com um aviso para lembrar-me que isso não foi apenas um sonho.



Dizem que as palavras possuem segredos, que apenas algumas pessoas sabem. Apenas quem as domina pode ter este acesso. Apenas quem sabe o que está entre as coisas. Apenas quem as têm perto.


Posso dormir sem medo, ver as tempestades surgirem, criar a palavra abissal, aquela que subverte a ordem linear das estreitas esquinas, a cama arrumada, a mesa posta com os talheres certos. Construo a ponte para poder atravessar ao outro lado da margem, vejo novamente seus olhos submersos, reconheço-me.

sábado, 23 de julho de 2016

Habitar-me







A pergunta veio como um sussurro, ou um pensamento que vem à tona: “será que alguém consegue viver sem isso?”. Referia-se ao barulho das ondas do mar, que se ouvia não muito longe. Pensei um pouco sobre a ideia, e logo percebi que a maior parte da minha vida não escutei esse som, que era tão próximo e fundamental para mim. O som que me fazia dormir, que me fazia sonhar, que me fazia sentir além-mar. Lembrei que o escutava quando criança, quando passeava com minha avó na praia antes do sol nascer. Me chamava a atenção a enorme quantidade de águas-vivas que a maré trazia de madrugada. Não sabia e até hoje não sei por que elas morriam na areia todas as manhãs.



O vento parecia ter combinado com o mar a batida das ondas, vinha e recuava, como se esperasse por aquilo todos dos dias. Uma vez contei quanto tempo levava para uma onda levantar e cair sobre as pedras. Sete segundos. O tempo que demora um silêncio compartilhado, o tempo que traz a espuma dos dias, o tempo que alivia uma dor que ainda não existe.


O som do mar ainda estará lá, infinitamente, com toda a aspereza do que é eterno, do que é indizível, do que ainda não se sabe, da esperança – palavra maldita – que existe uma espécie de futuro, de hemisfério, de linguagem ainda não inventada, de saber o que já se habita. Ouço mais atentamente esse som, porque a pergunta foi feita, porque antes não estava aqui.