sexta-feira, 30 de junho de 2017

Os céus nunca são iguais



Estilhaçar a palavra até perder-me em águas profundas.


Mar bravo. Ondas altas. As ondulações arrebentam onde está mais raso.


Percorro com meus dedos onde está a falta, o silêncio, o vazio. Voraz paisagem em que a febre atravessa e preenche o pôr do sol. Deixo que a chuva espalhe o que foi escrito na areia como uma sentença, um recado, uma declaração, como uma carta não entregue, ao som de lágrimas e vertigens.


Perco a medida, o limite, a sensata proporção do possível.


Prefiro a ausência, o corte, a dúvida. Basta o que está na superfície carregado do óbvio.


Volto à palavra, antes dela, ao silêncio. Ao que pode se formar com os olhos cheios d’água.


Os céus nunca são iguais, como o seu rosto perdido entre todos, como o sopro de uma lembrança, como a memória submersa que um dia volta à tona, como o nó na garganta, a mão que desliza pelos cabelos, a pele que se troca quando se depara com o abismo.


Salto. Silêncio.


O branco traduz a insensatez.





O deserto é Deus sem os homens – Honoré de Balzac 


Silêncio. Imensidão. Presente. Nada é mais arrebatador do que o deserto, nada é mais perto, nada é distante diante da colossal paisagem. A temperatura muda, o corpo transforma, a respiração diminui, os passos são lentos. O tempo é outro. Transcorre sem precisar contá-lo.


Na pele, as cicatrizes invisíveis aparecem, antigas e profundas, feitas por descuido, por zelo, por esquecimento. Transbordam. O pensamento se esvai, como a areia soprada pelos ventos, como algo não palpável, como se não precisasse existir.


Pausa. Respiro. Branco.


A luz entrecorta os contornos das pedras, do azul, o mais profundo. A vida acontece de forma rara, assim como a delicadeza persiste em meio a estados brutos, áridos, ausentes.


O tamanho exato, a medida do que é apenas o essencial, o que não sobra, o que cabe nas palmas das mãos.


Espelhos de céus, montanhas, cores. Reconheço traços que havia perdido, percorro a cartografia do impossível, do mapa ancestral vestido de peles e nuvens, com o sol colado na retina.

Mar alto   Mergulhar em mar alto, sonhar em águas profundas.   Transformar o abismo em ponte para navegar sem turbulência, para prov...