sábado, 18 de abril de 2015

O nome daquilo que não existe



Imagem: Obra de Marcelo Conrado


Rabisco seu nome no pulso. Desenho suas linhas no papel, escrevo seus olhos, faço uma incisão no seu pulso, percorro o contorno das suas mãos, marco com tinta a pele que foi tantas vezes a prova do que se viveu. Caligrafia de tantos respiros, silêncios, palavras tremidas, fôlegos soltos.

A brisa que sopra da janela avisa a partida. A música para de tocar no momento em que você sai pela porta que tantas vezes entrou e inundou a sala da minha casa de frases, cansaços, porquês, senãos.

O esboço, o traço, o risco apagaram-se aos poucos, como água que cai no papel e borra o que estava lá – impresso, escrito –feito pelas minhas mãos. Suas linhas ficaram invisíveis, já não lembro como são seus cílios, não lembro das suas costas, nem de como eram suas pálpebras fechadas. Esqueci de você para lembrar de mim.

Seguro as cicatrizes dentro das palmas fechadas, finco as unhas dentro das mãos, sinto que dessa maneira guardo o ar que existiu. Quando sonho as expedições abissais da memória trazem à tona o mar repleto de peixes coloridos, dos sorrisos vastos, do porto seguro ao encostar o queixo no seu ombro, de fechar os olhos e cair, cair, cair. Quando de repente, desperto. O susto monumental de acordar e perceber que nada disso existe. A nitidez dessas coisas que não têm nome, não têm cheiro, não têm mais sentido. São apenas aqueles malditos contornos que um dia tiveram forma, cor, cheiro, um alívio na imensidão das horas tingidas com a tua história.

Publicado na Revista Ideias/abril 2015

domingo, 22 de março de 2015

Irreversível



Acordo com a sensação de água salgada na pele. Nada vai aliviar, nem apagar, nem diluir. O pensamento é cortado por frases, respiros, reviravoltas de gestos. A palavra fere a linha imaginária das superfícies, divide os hemisférios, inventa outro idioma. Sou agora o que eu nunca ousei, o que está na memória, o que um dia lembrei por acaso. Por acaso ou na matemática precisa do córtex cerebral.

Assopro bem suave na sua nuca, deixo você sentir saudade, o gosto do futuro imperfeito. Faço planos para que não fujas, te vigio com meus olhos de pássaro, crio música, lhe mostro no espelho seu sorriso. Aviso-lhe por pistas que esqueci de mim, faço o percurso das suas mãos, caio na escuridão do abismo sem fim. Escreva-me, percorra-me, anoiteça-me, jogue os dados com os olhos fechados. Desenhe-me com sua caligrafia indecifrável, rústica, em letras minúsculas.

Sento na frente do rio onde passávamos horas olhando o mesmo horizonte, onde escrevia na areia enquanto você mergulhava no mar, onde deitava e olhava as nuvens que se formavam em diferentes desenhos no céu enquanto você lia alguma coisa e comentava comigo em voz alta. Prestava atenção em cada silêncio seu, conseguia ler em seus cílios a angústia e a melancolia. Podia ver por seus olhos.

O diálogo inicia-se com perguntas e termina sem respostas, com mais dúvidas. Entro nesse labirinto sem volta, me consumo ao pensar que isso terá um fim, e, quando chega, aniquila.

Toda essa ausência é minha, apenas segurei na sua mão para que me levasse, apenas toquei na sua pele para ser um pouco minha. Traduzi-me em seus sonhos para não te perder, nem no plano abstrato, nem em outro mundo, nem no voo cego, atenta ao equilíbrio do viés da calçada com os braços abertos para não cair.

Irreversível, como uma palavra sem volta, como um rio que corre, como o sol em meus olhos.


Publicado na Revista Ideias/março 2015

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Das dedicatórias encontradas nos livros





Quando tudo acaba, o cheiro fica. O cheiro que vem do mar, da música, da roupa caída no canto da sala. Memória tingida de rubro em espirais de fôlegos soltos, em palavras breves encolhidas no silêncio, nas linhas marcadas das mãos, na matemática abstrata das horas.

Tempo esvaído na pele, suave como o vento que sopra, como o céu que ignora. Preciso dos segundos cravados nas suas esquinas, do medo de dizer qualquer coisa que faça parar de ser o que sempre deveria existir. 

Pense em algo que você consiga ver o final, você me diz. Não como futuro, porque sei que você não acredita, mas como uma fórmula, uma estrutura, quase uma hipótese. Não creio em hipóteses, respondo. Apenas no que vejo e o que possa ser palpável, concreto, visível. Como o chão de tacos e o cinzeiro cheio. E a cortina da janela que dança ao redor da cadeira bordada onde sempre me sento para ler à noite. 

Meu teorema não permite o planejamento, por isso me surpreendo sempre com o improvável, com o inesperado, com a dedicatória escrita– para alguém que nunca saberei quem é –no livro achado no sebo. Estas palavras escritas com amor são o concreto e o palpável. Nada poderia ser mais real que isso. E é nisso que acredito, concorde você ou não. São naquelas linhas, nos livros perdidos, doados, esquecidos, que estão aquilo que buscamos uma vida toda, aquilo que um dia pensamos como algo que conseguimos ver o final, como você diz.

Quando tudo acaba, o cheiro fica– você devolve. E isso é uma espécie de futuro.


Publicado na Revista Ideias - fevereiro 2015

sábado, 31 de janeiro de 2015

sábado, 10 de janeiro de 2015

Animal acossado






Como um animal acossado, que espera em silêncio a hora do ataque, a matemática exata para mover-se, o momento preciso da distração para alcançar a presa, percebo apenas a frequência, a pulsação, o ritmo. A diferença está na frequência. Na frequência cardíaca, na frequência da pausa, na frequência de olhar para as coisas durante o mesmo tempo. O ruído acontece quando este ritmo é mais lento ou acelerado. Principalmente mais alto. Quando se fala mais alto, quando se pensa mais alto, quando se cala mais alto.


Houve um tempo onde existiam répteis alados, pássaros gigantes, dias que são noites, tempestades solares, chuvas de meteoros, cataclismo. A grande colisão causou um outro universo. Inventou-se uma nova vida, humanos surgiram para sobreviver em meio ao caos.


Paisagem invadida de memórias, solos úmidos e um novo idioma. Criou-se a palavra, o sentido da fala, o código central. Subtraiu-se o gesto, a espera, o olhar flechado na mesma direção. O entendimento traduzido pela pele.


O esboço dos primeiros contornos, pálidos, imprecisos, surge na paisagem oceânica das horas da manhã. O sol cai esparramado nas peles curtidas, nem tão acostumadas nem desconhecidas. Imóvel, como se paralisada pela superfície áspera, acompanho o nascimento e o declínio de um dia solar. Ali está apenas o presente, sem futuro nem passado.


Volto ao antigo mundo, onde havia seres fantásticos, cores distintas, pulsação, ritmo, frequência. Na batida do coração, reinvento o idioma, respiro no silêncio, espero entre as frestas a hora certa para correr.

Publicado na Revista Ideias  janeiro/2015

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O avesso do tempo






Vive-se este tempo sem hora. Este tempo algoz e insano, este tempo feroz e desumano, este tempo seco e quente, este tempo limite, este tempo para fora. Perdeu-se a metade de tudo, foi-se, acabou, como se acaba tudo a toda hora. Em outro tempo havia calma, esperança, alguma alegria. O profundo não é tristeza, não é miséria e sim abraço, ternura, paisagem, mar, música. Vestir o tempo e costurá-lo com bordados feitos à mão, rendas, segundas peles, cristais. Vesti-lo de lilases, cores, veludos. O tempo feito de delicadeza, de terra molhada, de sabor de chuva.

Tempo cão, tempos vorazes, tempo com olhos de pássaros noturnos, tempo de precisão. Tempo onde o cansaço arrebatou a dor, onde a cavidade dos vãos se transforma em poesia, onde a sua mão pousou na minha.

Tempo de espera, de lágrimas pausadas, de derreter as manhãs, de anoitecer os cílios, de qualquer outra coisa que não seja chão. O chão derrama sangue.

Tempo cravado na pele, tempo gasto, tempo perdido, tempo partido. 
 
Descobrir o tempo sem razão, sem lástima, sem cálculo. Correr atrás deste viés, desta dobra que virou e não se enxerga mais. O tempo dentro da concha quando a encostamos no ouvido, o som do tempo abissal, entrar no labirinto da memória. Enquanto não encontrar, esquecer o tempo que traz dor, sorrir e fazer este tempo ser para sempre.

Publicado na Revista Ideias/dezembro 2014

Mar alto   Mergulhar em mar alto, sonhar em águas profundas.   Transformar o abismo em ponte para navegar sem turbulência, para prov...