domingo, 22 de março de 2015

Irreversível



Acordo com a sensação de água salgada na pele. Nada vai aliviar, nem apagar, nem diluir. O pensamento é cortado por frases, respiros, reviravoltas de gestos. A palavra fere a linha imaginária das superfícies, divide os hemisférios, inventa outro idioma. Sou agora o que eu nunca ousei, o que está na memória, o que um dia lembrei por acaso. Por acaso ou na matemática precisa do córtex cerebral.

Assopro bem suave na sua nuca, deixo você sentir saudade, o gosto do futuro imperfeito. Faço planos para que não fujas, te vigio com meus olhos de pássaro, crio música, lhe mostro no espelho seu sorriso. Aviso-lhe por pistas que esqueci de mim, faço o percurso das suas mãos, caio na escuridão do abismo sem fim. Escreva-me, percorra-me, anoiteça-me, jogue os dados com os olhos fechados. Desenhe-me com sua caligrafia indecifrável, rústica, em letras minúsculas.

Sento na frente do rio onde passávamos horas olhando o mesmo horizonte, onde escrevia na areia enquanto você mergulhava no mar, onde deitava e olhava as nuvens que se formavam em diferentes desenhos no céu enquanto você lia alguma coisa e comentava comigo em voz alta. Prestava atenção em cada silêncio seu, conseguia ler em seus cílios a angústia e a melancolia. Podia ver por seus olhos.

O diálogo inicia-se com perguntas e termina sem respostas, com mais dúvidas. Entro nesse labirinto sem volta, me consumo ao pensar que isso terá um fim, e, quando chega, aniquila.

Toda essa ausência é minha, apenas segurei na sua mão para que me levasse, apenas toquei na sua pele para ser um pouco minha. Traduzi-me em seus sonhos para não te perder, nem no plano abstrato, nem em outro mundo, nem no voo cego, atenta ao equilíbrio do viés da calçada com os braços abertos para não cair.

Irreversível, como uma palavra sem volta, como um rio que corre, como o sol em meus olhos.


Publicado na Revista Ideias/março 2015

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