No texto Ler um romance de Orhan Pamuk para a Revista Piauí de novembro, ele diz na abertura: “Um romance é uma segunda vida. Como os sonhos de que fala o poeta francês Gérard de Nerval, os romances revelam cores e complexidades de nossa vida e são cheios de pessoas, rostos e objetos que julgamos reconhecer. Assim como no sonho, quando lemos um romance, às vezes ficamos tão impressionados com a natureza extraordinária das coisas que nele encontramos que esquecemos onde estamos e nos vemos no meio dos acontecimentos e das pessoas imaginárias que contemplamos”.
Sensação que permeia a vida de modo intrínseco, confunde sonho e realidade. Na imensidão voraz, da vida quando engasga. E surge uma imagem bumerangue, palavra-imã, eterno retorno. É uma espécie de amuleto, sinal, presságio. Encruzilhada, esquina, medo. A sós com as palavras, ouço John Keats , “Quanto tenho temores em cessar de ser...”.
A narrativa forma mais que uma frase, dá um sentido, imerso em referências e impressões que transcorrem outro universo. Puxado pela memória, contrasta com o vazio que transborda, que não se sustenta, que invade quando se está absolutamente só. Percorre os sonhos, cai nas paisagens solares, risca as noites sem fim.
Surge, aniquilador naquela frase, naquele livro, na imaginação que não dorme. No sentido que está na ancestralidade das percepções. Percorre as páginas em branco, escreve pelo corpo e refaz toda a cartografia da memória.
No livro O Aleph, de Jorge Luis Borges, ele diz: “vi a circulação do meu sangue escuro, vi a engrenagem do amor e a transformação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a Terra, e na Terra outra vez o Aleph e no Aleph a Terra. Vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos tinham visto aquele objeto secreto e conjectural cujo nome os homens usurpam mas que nenhum homem contemplou: o inconcebível universo.”
Uma das cenas mais inesquecíveis desse universo paralelo é o capítulo 7 do Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar: “Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água”.
Como se alguma conclusão fosse possível, finalizo com o escritor mexicano Octavio Paz. "Palavras, frases, sílabas, astros que giram ao redor de um centro fixo. Dois corpos, muitos seres que se encontram numa palavra. O papel se cobre de letras indeléveis, que ninguém disse, que ninguém ditou, que caíram ali e ardem e queimam e se apagam. Assim, pois, existe a poesia, o amor existe. E se eu não existo, existe você."
Existo, permaneço nesse mistério. A respiração para. Palavras ancestrais formam outro universo. Isso que torna o abismo mais profundo. Tão perto, tão longe, tão real, tão fictício. Um vazio inexorável.