Na volta do primeiro dia do I Congresso de Jornalismo Cultural, em São Paulo, estava perdida sem saber como voltar para casa, quando perguntei para um motorista de táxi quanto sairia até meu destino. Quando ouvi a resposta, agradeci e falei que não tinha como, pois não tinha aquele valor. Então ele me disse: “não tem problema, estou indo para esta direção mesmo, te cobro isso”, num gesto explícito de gentileza. Aceitei, com meus últimos 15 reais no bolso, quando a corrida custaria no mínimo o dobro. Às voltas com meus pensamentos dos grandes críticos e pensadores que fizeram suas palestras pensando em cultura, o taxista me perguntou: “Estou ouvindo música clássica, você gosta? Senão ponho outra coisa”. Respondi que sim, que gostava, e ele me mostrou muita coisa que ele tinha e me explicou como a música o acalmava do trânsito caótico de São Paulo. Conversamos então sobre a Virada Cultural e ele me confidenciou que tinha se emocionado ao ver o show de Maria Rita. Me contou seu maior sonho: viajar para Machu Picchu com a família, sabia que seria difícil , mas que um dia conseguiria. Com sua simplicidade e seu sorriso suingado, seu físico black soul man meio Tim Maia, meio Toni Tornado, sua elegância e sua delicadeza como uma melodia de Chet Baker, suas músicas eruditas e seu compasso lento e preciso conversamos sobre honestidade e sobre política, sobre leis e sobre valores, sobre cultura e sobre corrupção. Pensei nos contratempos dos acordes musicais, naquele espaço entre uma nota e outra, no que nos transforma e nos emociona, nas analogias do conhecimento e do saber na vida como ela é, do que vemos e do que não sabemos, e do que realmente somos, afinal. No final da corrida perguntei seu nome, ele me disse, “Marcos”, disse o meu, agradeci pela corrida e ele me falou: “ você é uma grande pessoa”. Não, Marcos, grande pessoa é você.