sexta-feira, 16 de março de 2012

Exemplo




O vendaval
à noite arrancou todas as folhas de uma árvore,          
menos uma,
deixada
para balançar só num galho nu.

Com este exemplo
a Violência demonstra     
que sim –
às vezes ela gosta de se divertir.
 
Wisława Szymborska

sábado, 3 de março de 2012

a sonho da razão produz monstros - Goya

Inesquecível


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012


Tempestade de nãos
Sem margem sem fuga
Senti seus olhos em mim
Desconheço
Atropelo meu fôlego sem pressa
Passo por cima dos pássaros caídos
dos sinais que não encontro
dos céus tingidos de noite
que apagaram o mar
em mim

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Mathilda



O Profissional, filme dirigido por Luc Besson, com Jean Reno, Natalie Portman e Gary Oldman. 

Na lista dos meus preferidos.

Natalie Portman faz Mathilda, com 11 anos. 

Minha vó acha que éramos parecidas com essa idade. Amo minha vó.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

Keats

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Louise Bourgeois e a matemática do desejo







Louise Bourgeois estudou matemática na Sorbonne, em Paris, em 1932. Porém, abandonou o curso e passou a frequentar diversas academias de arte até 1937, entre as quais Ranson, Julian, Calarossi e La Grande Chaumière. Foi aluna de André Lhote, Gromaire, Othon Friesz, Paul Colin e Fernand Léger, muito influenciada por este último, que revela sua vocação para a escultura. Em 1938 casa-se com o historiador de arte Robert Goldwater e passa a viver nos Estados Unidos, onde frequenta o Art Students’ League no ateliê de Vaclav Uylacil; nesse período é influenciada pelos cubistas, surrealistas e construtivistas. Em 1945 associa-se aos artistas da geração do expressionismo abstrato e a partir de 1946 mantém contato com Le Corbusier, Joan Miró e Yves Tanguy.

Louise Bourgeois fez arte conjugada com a literatura, a moda, o erotismo, o conflito e o desejo. A artista subverte os temas para questioná-los, como a arte deve ser.

Louise Bourgeois nasceu em Paris em 25 de dezembro de 1911 e morreu em Nova York em 31 de maio de 2010.


Louise Bourgeois
Séries autobiográficas
Gravura em metal
Museu da Gravura Cidade de Curitiba - 1º andar, bloco A
Até 19 de fevereiro de 2012

Caprichos de Goya








A série “Os Caprichos”, de Francisco Goya (1746-1828), está exposta no Museu Oscar Niemeyer (MON). São 80 gravuras que ele elaborou entre 1797 e 1799 a partir das técnicas de água-forte, água-tinta, ponta seca e buril.

Salvador López Becerra, diretor do Instituto Cervantes de Curitiba, instituição parceira na realização da mostra, explica que essa coleção é uma sátira da sociedade espanhola de fins do século 18, especialmente da aristocracia e do clero, do sistema de valores, do imobilismo dos costumes e da superstição. “É com ‘Os Caprichos’ que Goya se consagra como o grande mestre da gravura”, afirma Becerra.

Becerra lembra que os críticos afirmam que Goya é um dos precursores da arte moderna. “Desta forma, é óbvio comprovar como ‘Os Caprichos’ influenciaram gerações de artistas de movimentos tão díspares como o romantismo francês, o impressionismo, o expressionismo alemão e o surrealismo”, afirma.

Exposição “Os Caprichos”, de Goya.
Em cartaz até 24 de abril de 2012
Museu Oscar Niemeyer: Rua Marechal Hermes, 999 – Centro Cívico – Curitiba.
Horário: 10h às 18 horas.
De terça a domingo.
Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (No primeiro domingo de cada mês a entrada é franca).
 
a vida é um sopro

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Vazio inexorável



 

No texto Ler um romance de Orhan Pamuk para a Revista Piauí de novembro, ele diz na abertura: “Um romance é uma segunda vida. Como os sonhos de que fala o poeta francês Gérard de Nerval, os romances revelam cores e complexidades de nossa vida e são cheios de pessoas, rostos e objetos que julgamos reconhecer. Assim como no sonho, quando lemos um romance, às vezes ficamos tão impressionados com a natureza extraordinária das coisas que nele encontramos que esquecemos onde estamos e nos vemos no meio dos acontecimentos e das pessoas imaginárias que contemplamos”.

Sensação que permeia a vida de modo intrínseco, confunde sonho e realidade. Na imensidão voraz, da vida quando engasga. E surge uma imagem bumerangue, palavra-imã, eterno retorno. É uma espécie de amuleto, sinal, presságio. Encruzilhada, esquina, medo. A sós com as palavras, ouço John Keats , “Quanto tenho temores em cessar de ser...”.


A narrativa forma mais que uma frase, dá um sentido, imerso em referências e impressões que transcorrem outro universo. Puxado pela memória, contrasta com o vazio que transborda, que não se sustenta, que invade quando se está absolutamente só. Percorre os sonhos, cai nas paisagens solares, risca as noites sem fim.


Surge, aniquilador naquela frase, naquele livro, na imaginação que não dorme. No sentido que está na ancestralidade das percepções. Percorre as páginas em branco, escreve pelo corpo e refaz toda a cartografia da memória.


No livro O Aleph, de Jorge Luis Borges, ele diz: “vi a circulação do meu sangue escuro, vi a engrenagem do amor e a transformação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a Terra, e na Terra outra vez o Aleph e no Aleph a Terra. Vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos tinham visto aquele objeto secreto e conjectural cujo nome os homens usurpam mas que nenhum homem contemplou: o inconcebível universo.”


Uma das cenas mais inesquecíveis desse universo paralelo é o capítulo 7 do Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar: “Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água”.


Como se alguma conclusão fosse possível, finalizo com o escritor mexicano Octavio Paz. "Palavras, frases, sílabas, astros que giram ao redor de um centro fixo. Dois corpos, muitos seres que se encontram numa palavra. O papel se cobre de letras indeléveis, que ninguém disse, que ninguém ditou, que caíram ali e ardem e queimam e se apagam. Assim, pois, existe a poesia, o amor existe. E se eu não existo, existe você."


Existo, permaneço nesse mistério. A respiração para. Palavras ancestrais formam outro universo. Isso que torna o abismo mais profundo. Tão perto, tão longe, tão real, tão fictício. Um vazio inexorável.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

fui caindo como um sol caindo

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Rayuela - Capítulo 7

"Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água”.

Julio Cortazar

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

vazio inexorável
com a tristeza colada na retina

sábado, 28 de janeiro de 2012

E ao mesmo tempo que sua beleza física explode, ela fecha-se, no claustro de seu amor, que quer só para ela porque, de repente, tudo fica frágil, imensamente frágil.

Trecho de A mulher segundo Vinicius

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Um dia

Quem sabe

Trago notícias de nós
Neste país que não existe

Deixei-me
Esqueci de mim
Caí

assim

Como o sol se põe

Veja

São meus olhos que te respiram

No silêncio lento
Das madrugadas

Onde trago
Uma dor contínua

Quase doce
que me faz companhia

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012





Meus olhos são sinais através dos muros
Os olhos que não encontro
São seus

Seu sorriso, sua pele, seu caminho

Espelho
a raiz do seu sonho

são as esquinas, essas espirais do medo

roubo tua imagem
miro os seus olhos, seu sorriso, sua pele

entre a noite e o vento
invento uma língua
um país que não existe

refaço a cartografia da memória

escrevo para não existir mais


As fotos-colagens foram tiradas nas ruas de Madri, na Espanha, em setembro de 2011




















sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Lavoura Arcaica

Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, é um dos livros mais bonitos que existem. Leitura obrigatória para aprimorar a escrita, a essência, o estado bruto das coisas que chamamos pelo nome delas. Amor, família, raiva, paixão, obsessão, dores. Raduan Nassar nasceu em Pindorama, São Paulo. Escreveu apenas Lavoura Arcaica (1975), Um Copo de Cólera (1978) e Menina a Caminho (1980). Porém, Lavoura Arcaica é arrebatador e de longe o melhor que escreveu. Nassar desistiu da literatura para criar galinhas em sua fazenda no interior de São Paulo. Por este motivo foi comparado a Rimbaud, que abandonou a escrita para viver como mercenário na África. Mesmo tendo escrito pouco, as palavras da sua obra são tudo o que poderia existir como literatura. Cito um dos trechos mais comoventes e precisos do seu livro: “ o tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? o limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia a dia para ser vida nos subterrâneos da memória;” Publicado na Ideias

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Anoiteço
No seu silêncio
Sem perceber
amanheço

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Sagaz Silvia



Foto: Fernando José

Silvia Wy’a Poty é dançarina e psicóloga — com especialização em Psicologia do Corpo — e desenvolve um trabalho focado na investigação e na prática artística e terapêutica baseada na conexão corpo/mente e suas associações com ecologia, psicologia, ciência e arte.

O nome artístico Wy’a Poty — recebido em cerimônia indígena brasileira — traduz a outra face de sua pesquisa, integrando a conexão corpo/dança às tradições ancestrais e à ecologia pessoal — por meio de estudos milenares e contemporâneos com base na meditação e na consciência quântica.

O resultado desta pesquisa vem sendo transmitido e divulgado há mais de dez anos por meio de espetáculos e oficinas realizados nas secretarias de cultura do Paraná e em eventos internacionais, como na Espanha e Áustria. Em 2011, ministrou oficinas de dança e preparação corporal para G2 — Cia de Dança do Teatro Guaíra de Curitiba.

Quem vê Silvia e sua dança hipnótica com fogo, logo percebe que sua arte chega onde ela quer. E vai muito mais além.

Publicado na Ideias 122