quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Lhe dou uma eternidade



Lhe dou uma eternidade

Que acaba em qualquer instante

Não importa o que as palavras digam

Afinal só importa o que está aqui

Dentro da minha mão

Corre nos meus pulsos

Sem soltar

Sol, suor, saliva, sangue

Tenho você para meu mar em mim

Durante a eternidade

Que acaba em qualquer lugar





terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Salto




Espelho, vazio, salto

Nada mais longe

Nada mais perto



Meu mar sobre mim

A paisagem em dobras

A palavra árida

Gasta pelo tempo

Ressurge no seu pensamento



Viro a esquina

Descubro seus ângulos obscuros

Percorro as manhãs

Que me dizem que o vento

Sopra

Sempre

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Perder-me





Perder-me, dissolver todos os tecidos da pele, refazer-me. Em um segundo, passo do sonho ao concreto, deixo as cicatrizes mais profundas, abro outras, sangro por todas as frestas, desapareço.

Um dia paisagem, sol, plano. Uma vida toda.

Num instante, o céu muda, o vento sopra.

Prenúncio de tempestade.

Caí no abismo sem fim, percebi a veia dilatada do meu pulso, os olhos cheios de silêncio e lágrimas.

Percorri as pausas das linhas das mãos, abri as janelas, escancarei todas as dores e revirei as palavras − dissecando letra por letra as últimas escritas − as que revelam, as que maltratam, as que fazem acontecer a cisão.

Encontrar, um dia, quiçá, as flores abertas no jardim, sentir novamente o cheiro dos jasmins à noite, parar o horizonte e ver nos seus olhos a intensidade da certeza, o meu reflexo na sua pele interminável, o porto-miragem compassado às batidas do coração.

Em um dia, por uma vida inteira.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

uns versos

Sou sua noite, sou seu quarto
Se você quiser dormir
Eu me despeço
Eu em pedaços
Como silêncio ao contrário
Enquanto espero
Escrevo uns versos
Depois rasgo
Sou seu fado, sou seu bardo
Se você quiser ouvir
O seu eunuco, o seu soprano
Um seu arauto
Eu sou o sol da sua noite em claro
Um rádio
Eu sou pelo avesso sua pele,
O seu casaco
Se você vai sair
O seu asfalto
Se você vai sair
Eu chovo
Sobre o seu cabelo pelo seu intinerário
Sou eu o seu paradeiro
Em uns versos que eu escrevo
Depois rasgo
E depois rasgo

Adriana Calcanhoto

segunda-feira, 3 de setembro de 2018



e no final e no final e no final


ficamos sem saber para onde foi o cheiro, a luta, a memória


ficamos apenas com a sensação do sonho que nos levou para algum lugar

que nos sabíamos




desde sempre




esperar outra trégua


guardar as mágoas


sufocar o silêncio dos gestos subtraídos





poucos


uma hora muitos





em um dia que levou uma vida toda

Mar alto   Mergulhar em mar alto, sonhar em águas profundas.   Transformar o abismo em ponte para navegar sem turbulência, para prov...