quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Não existe mais lugar algum



A paisagem inverteu, o sol caiu, o mar inundou os olhos. Não existe mais lugar algum. Acabou. O imaginário mudou para sempre, a criança estendida na praia vai continuar ali, trazida pelas ondas, levando para sempre a delicadeza. Não seremos mais iguais diante disso. Ou espero que não.

Partimos para outro hemisfério, aquele que não cria raízes, aquele que não aprendeu a andar, aquele que ficou completamente surdo e cego, aquele que não tem chão, nem cama, nem sonho.

Antes ficasse para sempre a imagem da criança, do mar, do sol ligada à certeza, à esperança, à alegria. Antes chegasse pelas marés o sorriso, a leveza, a ventania. O deserto invadiu o mar. O mar cessou a poesia. As ondas refletem o céu.

Não há redenção. Não há salvação. Existe apenas o abandono, a tristeza, a devastação. Nessa terra sem bússola, sem margem, sem saída, partimos para lugar algum, seguimos blindados enquanto as crianças chegam trazidas pelas marés.


Publicado na Revista Ideias/outubro

sábado, 26 de setembro de 2015

Entre os loucos e os bem-sujos, de repente, cara, você é mais um. Não adianta lembrar que você é íntimo da delicada poesia de Florbela Espanca e que, mais de uma vez, o prodígio de suas noites foi construído a partir de madrugadas sóbrias, a fumo, bombons e Jorge Luis Borges.”

Wilson Bueno.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

seu nome estranho




Não consigo pronunciar seu nome. Não porque seja difícil, seu nome é comum, mas toda vez que te chamo parece que esqueço e procuro outro nome. Memorizo, soletro, falo em voz alta, mas nada me alivia da sensação de estranhamento.

Esse ruído transpassa os contornos imprecisos da abstração. Não é palpável, não é concreto, não é real, mas ali existe algo que sussurra, assopra, avisa. Te chamo por outro nome. Você não gosta. Repito que não vai mais acontecer. Acontece. Sinal, superstição ou naufrágio? Quem sabe. Apenas quem sobrevive aos desastres pode contar o que viu.

Percebo o erro, o desconcerto, o deslocamento. Vem à tona as memórias ancestrais das palavras e o que elas carregam consigo. Como se fossem bússolas que avisassem que o mar está revolto, que o tempo muda de uma hora para outra, que há nuvens que chegam pesadas e fecham céus iluminados.

Continuo a pensar no seu nome estranho, seu nome indecifrável, seu nome miragem. Um dia vou conseguir dizê-lo no escuro, letra por letra, sem nenhuma dúvida que ele é realmente o seu nome. Mas, por enquanto, te chamo por esse nome estranho.

Publicado na Revista Ideias setembro 2015

sábado, 15 de agosto de 2015

Ponta-seca e metal

A fotografia estava em cima da mesa. Estava solta no ar, na paisagem, na escada que dá para a sala, na varanda, naquela esquina escorregadia, no vão, na margem. A imagem em sépia, surrada, suja. Sombras de ontens, de manhãs geladas, de cafés amargos, de jornais amarelados, do gosto da sua boca quando o beijo vem lento, suave, quase um futuro do pensamento.

Congelo esse instante para que permaneça em meus sentidos, no cheiro e na pele. Fotografo sua boca, te trago perto da imensidão das horas, escuto sem querer as batidas compassadas do seu coração.

Seu pulso é meu ritmo, sua pele meu fim, seu sonho interroga meu sim. 

Asas de pássaro que não alcançam o chão, que não pisam o solo, que não sabem o que é terra porque está imerso no céu, porque inventou uma nuvem, porque é assim, um passo lento, um gesto para mim. 

Em seu branco e preto me permito ser matriz, ser as pazes da noite eterna, ser a prova de ser feliz. Porque és só e eu sou só, porque tem medo, porque me acorda nos pesadelos, porque me alivia dos desesperos, porque com as cores não seria intenso, porque escreve-me como se fosse seu mapa, marca sua chegada e sua partida, seus sóis e as marés revoltas em frases interrompidas.

Não me deixe abandonar sua morada, ensine-me a tecer as teias, devora-me com os talheres certos.

Dilua-me em água forte, nas matizes, crie uma incisão, ponta-seca e metal. 
 
Do avesso surge outro universo, subtrai o excesso, emerge o mar contínuo no seu olhar sem fim.


Para a Revista Ideias/ago2015

domingo, 5 de julho de 2015

Toureia-me




“Tourear ou viver como expor-se, expor a vida à louca foice*”, sentencia João Cabral de Melo Neto. Espetáculo mortal, geometria e precisão, atravessamento fatal do movimento. Palavra-seca, palavra-arena, palavra-mar, palavra-animal, palavra-sol, palavra-arma. Submeter a escrita ao deslocamento, fazer com que a palavra sangre diante dos olhos.

Balé indecifrável de gestos, respiros, chão. Fazer a poesia bailar no ar e ceifá-la, marcá-la, reparti-la.
O matador domina a paisagem, veste-se com cores fortes e tecidos justos, segue com os ombros ávidos, matemáticos. Na arena, quando seus olhos estiverem mergulhados no ritmo seco, conduzirá a dança mortal.

Nascerá assim o idioma ancestral, a caligrafia com os nervos expostos, a pele queimada de tantos sóis. 

“onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio**”

Viver é tourear, escrever-lhe sobre a terra batida, como se nada mais houvesse além de seu silêncio.

Toureia-me.



*trecho de “Lembrando Manolete”, de João Cabral de Melo Neto
**trecho de “Psicologia da composição”, de João Cabral de Melo Neto


Publicado na Revista Ideias julho 2015

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Magnitude 7.7



Obra de Jackson Pollock


Estavam de frente um para o outro quando houve o estalo. Como quando constroem um prédio muito alto perto de uma casa antiga e vê-se a sombra projetada no chão como um gigante. Só quando estáa uma distância longa percebe-se que aquilo tornou-se avassalador, monstruoso, com uma dimensão incalculada.Depois da demolição, depois do colossal efeito nocivo, depois da devastação na paisagem estática.


O mundo virou de cabeça para baixo.


Cansei de ouvir aquelas palavras, não me diziam nada. Quando você estava perto, destilava seus venenos gota por gota, até consumir todo meu mal. Doses de gelo e delírio.Era uma espécie de morte, dessa que se vai aos poucos, definha-se, transforma-se em pesadelos. Minha pele criou caminhos, fendas, incisões. Apesar disso, ainda pulsava. Não era mais eu, mas uma parte que não queria ver, que não enxergava, que não valia a pena. Que veio à tona com toda a força que lutei para não emergi-la. Mas ali, refletida numa espécie de espelho invertido, estava eu. Cansada, apagada, confusa. Olhei essa imagem para tentar me aproximar de algo que desconhecia,como se fosse alguém desprezível eque rejeitava profundamente. Essa parte sou eu, que você criou, que você atacou ferozmente com seus olhos de cão. Apenas quando me afastei percebi o cenário, após a tempestade, após suas horas na minha memória.


O abalo sísmico revelou a amplitude da devastação.


Reconstruí minhas linhas, a cada mão, refiz meus passos, sonhei novamente com leveza, caí no choro, caí de novo, dancei para mim. Continuei com essa dor, como se traz a cicatriz para perto, para poder vê-la e lembrar de que algo existiu, e que não foi em vão.


Ficaram apenas os arcos das linhas das minhas mãos, da vertigem de olhar ao longe e perceber que existeuma luz que incide na sombra, que um dia algo forte me dissipou, me partiu, me carregou com sua fúria para um país que não existe, todavia não mais o habito.


Inventei um novo idioma, rabisquei no meu corpo um mapa para não errar o caminho, criei uma paisagem solar, dancei no escuro e fechei os olhos num rodopio quase lento, para lembrar de mim.


Publicado na Revista Ideias junho 2015

Mar alto   Mergulhar em mar alto, sonhar em águas profundas.   Transformar o abismo em ponte para navegar sem turbulência, para prov...